UMA VIAGEM DE TREM A NOVA FRIBURGO: O PASSADO MANDA LEMBRANÇAS

O PASSADO MANDA LEMBRANÇAS
UMA VIAGEM DE TREM A NOVA FRIBURGO

            Conforme ata da Câmara de janeiro de 1870, a estrada de ferro foi logo percebida como o grande fomento de que precisava a então pacata vila de Nova Friburgo para trazer mais touristes à cidade.“...Além disso, a estrada de ferro facilitará aos ricos que quiserem se distrair e aos doentes que se quiserem curar ou convalescer sob este clima doce, suave e ameno, cuja reputação é tradicional, um rápido e cômodo transporte. A serra da Boa Vista deixará de ser o espantalho dos habitantes de aquém e de além Nova Friburgo.....”


O trem para Nova Friburgo partia diariamente às 7:00 horas da manhã da Estação de Maruhy, em Niterói. A barca que ficava em correspondência com esse expresso saía às 6:10 da manhã da Praça 15 de Novembro. O trem passava pelas estações do Porto da Madama, São Gonçalo, Alcântara, Guaxindiba e Itamby, sem fazer nenhuma parada. Chegava à estação de Porto das Caixas às 8:00 horas da manhã. Essa estação, que ficava a 34 km de Maruhy, era uma parada providencial para se adquirir, dos vendedores de frutas, cambucás, laranja, tangerina, lima, limão doce, jabuticaba, fruta do conde, abacaxi, melancia, sapoti, abacate, etc. Mas para a viagem levava-se ainda um farnel com cestas de frango assado e uma lata repleta de pastéis. Os homens usavam guarda-pó. Na cabeça, um lenço com nós nas quatro pontas para proteger os cabelos do pó do carvão expelido pelo trem e da poeira da estrada. Vendedores das apreciadas orquídeas(parasitas), a Catléia Harrisonia, enchiam os olhos principalmente dos estrangeiros, como os ingleses, apreciadores dessa planta nativa. No botequim da estação, um café acompanhado de bolo de arroz ou de milho.


A Vila de Porto das Caixas fora outrora lugar de grande comércio e parada dos tropeiros que transportavam café de Cantagalo. Nessa estação, a linha bifurca-se, seguindo a de Cantagalo para a esquerda e a de Campos para a direita. Passa-se por pontes, pontilhões e avistam-se as ruínas da Igreja do Convento dos Jesuítas. De Porto das Caixas chega-se a Sant´Anna de Japuhyba às 08:35 da manhã, com pequenas paradas em Sambaetiba e Papucaia. Segue o trem então rumo a Cachoeiras sempre guiado pelo Rio Macacu. Próximo às 9:00 horas da manhã, depois de um percurso de 73 km, chega-se a Cachoeiras de Macacu. Mais uma parada para o lanche onde se encontram no botequim, café, pão de loth, beijus e bananas. Nessa estação, faz-se a mudança da locomotiva por outra mais apropriada à subida da serra. Segue o trem, passando logo depois da saída da estação por uma ponte sobre o Rio Macacu e chega-se a estação da Boca do Mato onde o trem fica por pouco tempo. Dessa estação é que realmente começa a subida da serra longa e majestosa de Nova Friburgo onde o trem serpenteava, animado pelo vapor de suas máquinas possantes, e sob uma chuva de fogo a cair sobre o comboio. Na serra, a viagem de trem transportava o espírito do viajante para um abismo na confusa expressão de suas brumas. Quando a paisagem então se descortina, “tem-se a ideia de que o trem se encaminha para o céu, para um reinado de nuvens, em meio a árvores em flor e na fresca e suave aragem que sai de suas florestas. Desde o alto da serra que tudo é cantante: a mata, o riacho que se atira pelo declive, o agricultor montanhês que traz o produto de sua roça ao mercado, os seus sítios, suas granjas trabalhadas à margem da estrada que corre ao lado da de rodagem, até que afinal o silvo da locomotiva anuncia Friburgo com o seu vôo de pombos à entrada!”, assim descreveu um viajante na matéria “Pérola Esquecida”, em O Nova Friburgo, de 09 de maio de 1937.




Passados vinte e cinco minutos de subida por entre altas montanhas, matas virgens e tendo sempre à direita o Rio Macacu, repleto de cachoeiras, chega-se ao Posto do Penna, no meio da serra, no quilômetro 86, já numa altura de 586 metros acima do nível do mar. Já no quilômetro 90 alcança-se o Posto do Registro encontrando-se o trem já numa altitude de 732 metros. Uma pequena parada para a máquina do trem “tomar água” e os passageiros aproveitam igualmente para se refrescarem bebendo água que corre em uma pequena fonte artificial. Do Posto do Registro até a Estação de Theodoro de Oliveira(km 93), conhecido como o Vale do Santo Antonio, leva-se doze minutos. Chega-se a essa estação por volta da dez horas e depois de uma pequena parada, para mudar de novo a locomotiva, parte-se para a tranquila cidade serrana de Nova Friburgo, já agora o trem acompanhado pelo Rio Santo Antônio. Avista-se então a represa de abastecimento d´água de Nova Friburgo onde o rio precipita-se formando uma bela cachoeira, denominada de Hans. Descendo o trem, alcança-se a Ponte da Saudade. Esse pitoresco lugar foi assim denominado porque essa ponte era a última parada das pessoas que acompanhavam os que partiam em viagem a cavalo ao Rio de Janeiro. Faltando um quilômetro para chegar à estação da cidade(hoje a Prefeitura Municipal) a maria fumaça, ou cavalo de ferro apita, anunciando estrepitosamente a sua chegada. Depois de ter feito um percurso de 108 km partindo de Niterói, chega a Nova Friburgo. Quando de sua entrada na cidade, os meninos tinham por hábito brincar na linha do trem, exibindo-se para as meninas. Costumavam ficar sobre os trilhos aguardando o trem e quando esse se aproximava permaneciam até o último instante. O maquinista apavorado, sem poder frear o trem rapidamente, apitava, apitava e os “capetas” rodopiavam cada vez mais sobre os trilhos. Só saltavam fora dos trilhos no último instante....Na viagem de trem a Nova Friburgo, o passado manda lembranças.







UMA CIDADE COSMOPOLITA - Um Inquérito sobre Nova Friburgo – Parte I

Cidade de Nova Friburgo - 1940






Hotel Engert e abaixo o salão do hotel.




No século XIX, surgiu a imprensa. Além do noticiário e da literatura, nasce a crônica e consequentemente, a figura do cronista. Muitos deles, ao invés de comentar os assuntos políticos, voltaram-se para a descrição de situações do cotidiano. Flanavam pela cidade, observavam os acontecimentos do dia, retornavam à redação e narravam o que presenciavam. Muitos descreviam suas impressões de viagem. E nesse último caso, foi graças a Arthur Guimarães, que publicou suas crônicas no livro “Um Inquérito Social em Nova Friburgo”, nos idos de 1916, que podemos conhecer um pouco sobre o município nessa época. Foi um período importante na história de Nova Friburgo.






Há cinco anos haviam se instalado as primeiras indústrias no município, e se por um lado parecia ter trazido desenvolvimento, por outro, problemas sociais. O deslocamento do campo para a cidade e a migração para Nova Friburgo, de acordo com o relato do cronista, originara um significativo contingente de população miserável, atraídos, possivelmente, pelo grande afluxo de turistas e notadamente devido à instalação das indústrias. Esta série compreenderá cinco capítulos em que conheceremos o perfil da população, o comércio, a indústria, a agricultura, sua vida material, enfim, o cotidiano do friburguense no início do século XX, pela lente desse cronista. Arthur Guimarães assim escreveu:


“Tem toda a razão o Sr. Alberto de Torres quando em seus notáveis escritos, assina que nenhum outro país pode, talvez, como no nosso, realizar o tipo de sociedade política cosmopolita. Nova Friburgo, a formosa cidade serrana situada na Serra dos Órgãos, a 880 metros acima do nível do mar, confirma o acerto. Nela existem e votam cidadãos de origens e raças diferentes[aqui ele quer ser referir mais às nacionalidades], perfeita e legalmente incorporados ao meio e à nossa pátria. Na vereança tiveram e têm assento alemães, suíços, franceses, portugueses, italianos e espanhóis. O alistamento eleitoral é composto de turcos [libaneses], dinamarqueses, ingleses e holandeses. Nos cargos públicos figuram, igualmente, portugueses, espanhóis e italianos. Em todos os ramos da atividade humana, ei-los representados, senão em troncos [os primeiros imigrantes], ao menos nas descendências.(...) É ordeira, não há dúvida, a população friburguense e, na sua generalidade, honesta. Não há roubos, senão esporádicos, cometidos por adventícios. Os crimes são espaçadíssimos. Poucas rixas, de taponas e ponta-pés, de raivas e de dores passageiras. Mas em compensação há bate bocas tremendos nos bancos da Praça Quinze [atual Praça Getúlio Vargas], por questões partidárias, prenhes de ameaças, descomposturas e esconjuros. A política empolga, agita, absorve, quer a elite da terra, quer os seus satélites.(...)No auge da luta, quase todos perdem a compostura, salvo honrosas exceções, pondo máscaras, como os carnavalescos, para dançar a tarantela costumeira na folia partidária. (...) Numa cidade de seis a oito mil almas [aqui refere-se à população do centro da cidade], como Friburgo, há três folhas hebdomadárias [jornais], retintamente partidárias, quando poderiam existir só duas, uma diária e noticiosa. As fraudes eleitorais são cometidas à luz meridiana. Só encontram esfarrapada desculpa no serem miniatura das feitas nos grandes centros. Exemplo do alto. E fraco consolo é saber-se que, em todos os tempos, mais ou menos, o mal lavrou os nossos arraiais políticos.(...)
Florescem criações admiráveis. A nossa falta de persistência deixou-as morrer. Assim, a criação desse estabelecimento hidroterápico, fundado e dirigido por ilustre médico, o Dr. Eboli[refere-se ao Instituto Hidroterápico que faliu em 1895, dez depois do falecimento de Eboli]. A tradição só recolheu duas coisas: um grande edifício, com pequena parte dos aparelhos hidroterápicos, hoje servindo de colégio das Irmãs Doroteias, para meninas (internato) e uma inscrição, em pedra mármore, na face externa da parede, correspondente ao local das duchas, assim concebida: ‘Ao benemérito italiano Dr. Carlos Eboli, fundador deste estabelecimento hidroterápico, 1881-1884. Obra de seu saber, fonte de vida, renome e glória de Nova Friburgo. Homenagem de seus admiradores. 25 de junho de 1909.’ (...) Na seção hidroterápica do formulário de Chenoviz (17° edição), há uma descrição completa do estabelecimento, do Hotel Central, com 180 cômodos, e todos os elementos de bem estar e conforto, além de dados climatérios e atmosféricos, abonadores da privilegiada montanha. Na fachada lateral figuram ainda, em pintura desbotada, estas palavras melancólicas: Hotel Central – Duchas. Nada mais recorda o criador e sua inteligente iniciativa. (...) E onde se tratavam saúdes
de adultos, onde estivera a vida, a instrução trata almas de crianças.




Instituto Sanitário Hidroterápico e Hotel Central em Nova Friburgo




Outros estabelecimentos seletos desse período áureo merecem menção. O Colégio Freese, o Liceu de Humanidades e o Chateau, este fundado pelo barão de S. Valentim, naturalmente no edifício municipal em que, outrora, se hospedara o Imperador, desapareceram. (...) Ressurgiu no local do Chateau, o Colégio Anchieta, hoje monumento grandioso. Onde fora plantado pequeno arbusto, surgiu frondosa árvore. Onde se curou do corpo enfermo, trata-se hoje do corpo são e juvenil. (...) Qual o viver do povo? Simples, calmo descansado. Algumas vezes, os veranistas perturbam-lhe o doce viver. Perturbação compensada pelos lucros espalhados pela terra. Os hotéis, em número de cinco, Friburguense, Leuenroth, Engert, Salusse e Pensão Central, regurgitam no verão, de novembro a maio.


As barbearias, as cocheiras, as casas de alugar bicicleta, os cinemas, o rink, o teatro, acusam dobrada e tripla frequência nesse tempo do ano. Também os proprietários lucram, alugando casas por preços mais elevados e os caros e as bicicletas circulam, de manhã à noite...”


Segunda parte: “Os Bas-Fonds friburguenses”.
















ENCHENTES, COTIDIANO E HISTÓRIA


Para quem conhece a história de Nova Friburgo, as enchentes do rio São João das Bengalas não surpreende. O que de fato, surpreende, é ausência do poder público durante décadas em lidar com uma situação cotidiana do município. É notório que desde a fundação da vila as enchentes desse rio, mormente no verão, sempre causaram danos materiais, e às vezes humano, à população. Logo, já que as chuvas torrenciais de verão são um déjà Vu em Nova Friburgo, já não deveríamos ter um plano de prevenção que minimizasse o infortúnio da população? Muitas vezes tem-se a impressão do quanto pior, melhor. Melhor para os políticos oportunistas que aproveitam a situação para oferecer um favor, naquilo que deveria ser uma obrigação. O município ainda tem que lidar com a interferência de políticos a serviço do Estado, que colocam prontamente empresas de fachada para prestar serviços pós tragédia e locupletam o ganho pessoal. As redes sociais como o facebook, mostram em tempo real, através dos grupos, a exemplo do grupo “Alerta Chuva em Nova Friburgo”, o que está ocorrendo em cada bairro. A tragédia das chuvas não é mais aquilo do ouvi dizer, mas o que se registra nessas redes sociais pelos moradores dos bairros que “postam” fotografias e até mesmo vídeos do que ocorre em suas localidades. Mas como o objeto dessa coluna é fazer um paralelo entre o passado e o presente, vamos à ele.


A vila de Nova Friburgo foi criada em 1820, para servir de base administrativa para a primeira experiência de núcleos coloniais no Brasil, utilizando a mão de obra livre, em um país que tinha até então o seu modo de produção e sua economia baseada no trabalho escravo. Essa primeira experiência com colonos foi feita com suíços originários de vários cantões da Confederação Helvética, prevalecendo entre os colonos os do Cantão de Fribourg, daí a origem do nome do município. Como as cidades se originam ao redor dos rios, em Nova Friburgo não foi diferente, desenvolvendo-se às margens do rio São João das Bengalas, formado pela confluência dos rios Cônego e Santo Antonio que lança-se no Rio Grande e deságua no Paraíba do Sul. As enchentes desse rio começam a fazer parte da história de Nova Friburgo desde a sua fundação. Em 1820, devido às incessantes chuvas de verão, a primeira colheita dos colonos suíços recém instalados foi um fracasso. Os suíços abandonaram suas terras e retornaram para a vila. Com as chuvas incessantes, Nova Friburgo apresentava aos colonos um aspecto desolador, acarretando um clima de tensão. O Rio Bengalas transbordara, as pontes que não foram arrastadas ficaram danificadas e as árvores plantadas nas calçadas foram arrancadas. A enchente atingiu igualmente as casas da vila e os riachos tornaram-se torrentes que devastavam os jardins, derrubadando as cercas. Tudo estava inundado. Durante alguns dias, as precárias vias públicas ficaram fechadas para o trânsito. Sob as chuvas intermitentes, Nova Friburgo não parecia uma vila, mas um alagado. Os colonos ociosos reuniam-se nas tabernas e bebiam para matar o tempo, procurando no copo de cachaça um consolo para suas miseráveis vidas. Monsenhor Miranda, Inspetor responsável pela Colônia, lastimava as bebedeiras e a ociosidade entre os colonos que se desentendiam e trocavam insultos. Os colonos chegaram às vias de fato e à noite, ecoava na vila, tiros de fuzil, sendo registrados tumultos e até mesmo casos de estupros.


Já em 1849, o Código de Postura previa que em caso de inundação, a Câmara Municipal poderia solicitar a colaboração da população para debelar tal sinistro. Caso não houvesse colaboração, punia-se o cidadão com pena de multa e até mesmo prisão. Quando havia inundação do Rio Bengalas na vila, fazia-se o “sinal de rebate e chamada”, e cada vizinho do quarteirão era obrigado a acudir ao lugar que sofria danos com todas as “pessoas úteis” de sua família. Ainda no caso de inundação, estando as ruas às escuras, deveriam todas as casas vizinhas iluminarem-se desde o ponto destinado a socorrer. Igualmente, toda pessoa que possuísse máquinas e instrumentos úteis para os socorros de inundação, tais como bombas d´água, barris, tinas, baldes, barcos, carroças, escadas, machados, serras, calabrês, moirões, cordas, correntes e couros ou outros quaisquer objetos de préstimo, seria obrigado a concorrer com os mesmos, colocando-os na ocasião da inundação, à disposição das autoridades presentes, com direito a indenização por qualquer dano ou prejuízo que neles viesse a sofrer. Atualmente, o voluntariado substitui essas práticas. Já no decorrer do século XX, as fontes iconográficas demonstram, notadamente, que as enchentes faziam parte do cotidiano da cidade.
Logo, passando uma vista d´olhos no passado, fica claro que o problema das enchentes não tem como marco inicial as tragédias naturais dos últimos anos, provocadas por mudanças climáticas, como vaticinam algumas pessoas. No entanto, a ocorrida em 2011, vai ficar na memória da população em virtude dos desmoronamentos dos morros, considerada como uma das maiores cem tragédias, nessa categoria, na história da humanidade. Nova Friburgo ocupou espaço na mídia internacional em razão desse sinistro. Não bastasse isso, a história de Nova Friburgo ainda é matizada pela passagem de três prefeitos num só mandato acarretando a descontinuidade de políticas públicas. As eleições municipais ocorrem nesse ano, tendo o efeito simbólico de se saber se os friburguenses desejam mudança ou continuidade, quer em relação ao executivo(prefeito), quer em relação à Câmara Municipal. Somos todos cidadãos ativos para responder, nas urnas, aqueles que serão os timoneiros de Nova Friburgo nos próximos anos.

Do Jockey Club à cavalgada de São Jorge: Da sociabilidade mundana ao rito religioso












Friburgo Jochey Club - 1911

Ao longo da história, o fato de se possuir um cavalo e de se transformar em um cavaleiro, sempre deu status aos homens. Na Antiguidade, o imperador romano Calígula elegeu seu cavalo senador. Mas muito antes dele, Alexandre, O Grande, tinha no seu cavalo, Bucéfalo, o seu maior aliado nas batalhas. O cavalo sempre foi um companheiro de reis e nobres, tornando-se um esporte da aristocracia em várias nações europeias. No Brasil, no século XIX, com a europeização da sociedade brasileira, o turfe, ou seja, as corridas de cavalo, passaram a ser um esporte e uma forma de sociabilidade das elites. O turfe foi introduzido no Brasil pelos ingleses, influenciando as modas e os modos da aristocracia brasileira. Em 1877, já há o registro de corridas de cavalo promovidas nas ruas da vila de Nova Friburgo.






















Em 1883, surge, em Nova Friburgo, o clube atlético denominado General Osório que promovia corridas de cavalo na rua do mesmo nome. Há o registro ainda do Clube Atlético Bargossi, que pediu permissão à Câmara para colocar postes de raia na Praça do Suspiro, para que se realizassem corridas aos domingos e dias santificados. Por iniciativa da família do Barão de Nova Friburgo, os Clemente Pinto, foi fundado em 22 de abril de 1881, o Jockey Club de Nova Friburgo. A família inauguraria igualmente, em 12 de julho de 1885, o prado do Jockey Club Cantagalense, no Palacete do Gavião. O primeiro presidente do Jockey Club de Nova Friburgo foi o Barão de São Clemente, fazendo parte do seleto club Augusto Marques Braga, Pedro Eduardo Salusse, o médico e presidente Câmara Municipal Ernesto Brazílio, entre outros. Do conselho fiscal participavam Elias Antonio de Moraes, o 2° Barão de Duas Barras, e o empresário do ramo hoteleiro, Carlos Engert. Não se pode precisar, mas em dado momento o Jockey Club de Nova Friburgo se extinguiu.










Anos depois, foi fundado em 30 de abril de 1911, o Friburgo Jockey Club, também formado pela elite local, por iniciativa de Octávio Veiga, Galdino do Valle Filho e do Cel. Galiano Emilio das Neves Junior, os dois últimos grandes inimigos políticos. Já no século XX, havia em Nova Friburgo dois prados: o prado Entre Rios, em Lumiar, e o Prado de Corridas de Conselheiro Paulino. O prado de Conselheiro Paulino tinha sua sede social no Hotel Salusse. Competições de equitação eram igualmente realizadas no Friburgo Futebol Clube.






Nos dias de competição, era um alvoroço na cidade. Ainda cedo, todas as garagens de bicicletas eram procuradas por visitantes das localidades próximas, que, em trajes esportivos, cortavam alegres as extensas alamedas da Praça 15 de Novembro (atual Getúlio Vargas). Às 11:00 horas, todos se dirigiam à Estação da Leopoldina para recepcionar as “embaixadas” de Niterói, Petrópolis e da “Força Pública”. Eram recebidos com “hurras vibrantes” por todos os esportistas presentes na estação. As torcidas, os sportmen, vinham a Nova Friburgo animar os seus atletas. Os cariocas que vinham assistir ao turf friburguense, ficavam geralmente hospedados no Hotel Central (hoje edifício Folly), Floresta e Suspiro. Como é comum nesses espaços de sociabilidade, as corridas de cavalo atraíram a alta sociedade, sendo ocasião para o exibicionismo de indumentárias e, segundo o jornal A Paz, “as arquibancadas apresentavam o que de mais elegante possui a nossa sociedade”.





Em julho de 1986, foi fundado o Clube do Cavalo de Nova Friburgo, funcionando provisoriamente em Amparo. Objetivava-se incentivar a criação de cavalos de raça no município, com a participação dos criadores locais em exposições e em organizar provas entre os associados. O Clube do Cavalo contava com a participação da classe média friburguense, e não mais da classe alta, como outrora. Curiosamente, o associado não precisava ter cavalo, não se cobrava taxa de seus associados, diferentemente do passado quando se cobrava uma “joia”. No mesmo ano de sua fundação, foi realizada a I Prova de Hipismo Rural de Nova Friburgo, em Conselheiro Paulino. Nas modalidades, marcha, cross, baliza, rodeio, laço e tambor. Leilão de animais e igualmente um espetáculo artístico estavam previstos na programação. Mas o Clube do Cavalo foi extinto. Atualmente, acontece a cada ano, em Nova Friburgo, a Cavalgada de São Jorge, já na sua décima quinta edição. Seus integrantes são cavaleiros pertencentes às classes populares. A cavalgada se inicia no curral do sol, provavelmente por influência do antigo prado de Conselheiro Paulino. O evento conta com a participação de cavalheiros e amazonas provenientes de vários bairros e de outros municípios. Os integrantes percorrem várias localidades de Nova Friburgo, passando inclusive pelo centro da cidade. Nessa ocasião, a imagem de São Jorge, padroeiro dos cavaleiros, abre o préstito, que faz uma procissão de aproximadamente sete quilômetros. Júlio do Cavalo, promotor do evento, prometia churrasco de confraternização com um animado forró aos que quisessem participar da cavalgada.



















A história da cavalaria em Nova Friburgo passa por um processo interessante: como vimos, o turfe era um esporte inicialmente das classes sociais mais abastadas e progressivamente ganhou popularidade. No Clube do Cavalo a montaria ganhou elementos de religiosidade, com a figura São Jorge, orago e padroeiro dos cavaleiros. Isso demonstra o profundo sentimento religioso do povo brasileiro, que acrescentou à festa mundana ritos religiosos, diferentemente das elites que nunca associaram a cavalgada ao santo que lhe é padroeiro.

Observação: Todas as fotos acima são da Cavalgada de São Jorge em Nova Friburgo.





































As Folias de Reis em Nova Friburgo





Conforme escreveu Melo Moraes Filho, “essa bem aventurança popular, esse esquecimento momentâneo das lutas pela vida, só a religião largamente proporciona...” As Folias de Reis ainda estão presentes na cultura popular de Nova Friburgo. Composta por homens das classes populares, elas mantêm a tradição dos tempos de antanho. O objetivo desta matéria é demonstrar como essa prática cultural se manifesta em Nova Friburgo, já que em cada região do Brasil ela varia sobremaneira. São componentes da folia o mestre, os contramestres e os foliões, ocorrendo uma hierarquia nessas posições. As folias iniciam a sua apresentação no dia 08 de dezembro. Porém, há folias em Nova Friburgo que “cantam” durante todo o ano. São muito solicitadas nessa ocasião por particulares ou mesmo por uma comunidade para fazerem uma apresentação. A folia Estrela da Guia, em 2009, deixou de atender a 19 convites por falta de agenda.




Quando chegam a uma residência, o dono da casa abre a porta e recebe a bandeira, guia da folia de reis, que leva estampada a imagem da Sagrada Família e outras representações da passagem bíblica como o nascimento, a fuga o Egito, etc. A bandeira geralmente recebe uma oferta em dinheiro e a espórtula é voluntária. Há um lugar na bandeira para se colocar a oferenda e há muitos versos para agradecê-la quando os foliões entoam o seguinte canto: “Meu senhor dono da casa, eu já lhe devo obrigação, recebeu nossa bandeira e está com ela na mão. Com a bandeira na mão, eu peço o seu consentimento, pra entrar em sua casa, vou parar meus instrumentos.” Ou então: “Recebeu nossa bandeira e está com ela na mão, pra entrar em sua casa, quero a sua permissão”. São infindáveis os versos de cantoria das folias e só a Estrela da Guia possui mais ou menos dois mil versos, fruto da composição de muitas gerações. Os versos não são uma coisa fechada. Cada localidade têm os seus versos, não sendo o mesmo em Nova Friburgo, Minas Gerais ou no Maranhão. César Eduardo Tarden, da folia Estrela da Guia, é da terceira geração de uma família que “cantou reis”. Começou a cantar desde os oito anos, respondendo a “requinta”. Mas o que é a requinta na folia de reis? Segundo Tarden, “quando se arremata um verso a requinta responde. É um grito lá naquelas alturas, tudo trovado”. Exige uma voz muito fina e geralmente são as crianças que fazem a requinta.

A maioria das folias têm como instrumentos uma sanfona, um pandeiro e a bateria. As mais ricas são mais bem aparelhadas, como é o caso da Estrela da Guia, que possui um acordeão, uma caixa, cinco violões, duas violas caipiras, uma rabeca(violino), um bandolim, quatro cavaquinhos e uma caixa de bumbo para marcar a requinta. Mas os instrumentos básicos são a sanfona, o bandolim e a caixa. No entanto, para Tarden, o violão, a viola e o violino fazem a diferença. E a figura do palhaço? O palhaço não está presente em todas as folias. As folias de Minas Gerais, segundo Tarden, não tem palhaço. No entanto, há folias em Nova Friburgo que tem até três palhaços. O palhaço na folia representa os soldados de Herodes, isso porque ele mandou seus soldados se disfarçarem de palhaço.


“Herodes recebe os magos com grande perturbação, e onde nasceu o menino, ele indagou com precisão. Os três reis do Oriente já voltaram de Belém, adoraram o Deus menino, o filho que a virgem tem. Voltaram por outro caminho, pra livrar o Deus menino, das garras do rei Herodes, que têm um gênio Maligno.” Tradicionalmente, a folia está ligada ao nascimento de Jesus Cristo. Há todo um rito na apresentação das folias. Inicia com a Anunciação, entre os dias 08 a 24 de dezembro. Depois da Anunciação vem o Nascimento, em 25 de dezembro. A Anunciação e o Nascimento fazem parte de uma mesma fase. As etapas seguintes são a Visita dos Pastores, a Adoração, a Fuga do Egito, a Perseguição de Herodes, o Martírio e a Crucificação. Todas essas etapas têm cantorias próprias que se estendem em apresentações pelo mês de janeiro e estão relacionadas às passagens bíblicas.


“Eu de todas as mulheres, dali eu fui a escolhida, pelo Divino Espírito Santo, a serva de Deus preferida. No ventre da Virgem Maria, um menino foi gerado, e antes do nascimento, ele foi anunciado.” O versos da folia são rimados, como as trovas, mas alguns cantam sem rimas. “Os três reis foram chegando, cada passo mais além, afinal que até chegaram, no presépio de Belém.” Curiosamente as mulheres não participam das folias, e a sua aceitação é um fato raro. Nas apresentações diante do presépio, que duram entre meia hora e quarenta minutos, há uma ordem, sendo que uma folia tem que aguardar o término do trabalho da outra. Cada folia tem a sua cor, são bicolores, mas não são como as escolas de samba e os times de futebol em que cada qual tem a sua cor. Podem até repetir a mesma cor. Cada folia tem o seu canto, puxado pelo mestre.



Antigamente, quando duas folias se encontravam uma cantava para a outra. Mas como algumas cantavam o calongo, ou seja, bobagens, e não as passagens bíblicas, começou a haver conflitos entre as folias chegando-se, muitas vezes, às vias de fato. Segundo Tarden, “tinham muitos que cantavam provocando um ao outro e o que era necessário cantar não cantava.” Quando o Papa João Paulo II assumiu, proibiu o “desafio” entre as folias de reis em decorrência dessas confusões. Em 2009, vinte e duas folias foram cadastradas na Secretaria de Cultura de Nova Friburgo e nos encontros chegam a participar mais de oitenta, muitas delas provenientes de outros municípios. Finalmente, existe o “arremate” que é o encerramento da folia, com uma grande festa de congraçamento, com a presença de um padre, e toda a comunidade de onde provêm as folias se confraterniza.


A Hidroterapia: A cura pela água

Abaixo, imagens do antigo Estabelecimento de Hidroterapia e do Hotel Central. Atualmente, Colégio N. S. das Dores.










Vincenzi Priessnitzovi(1799-1851)



Abaixo: fotos da estação de águas de Caxambu - MG


















Abaixo, estação das águas de São Lourenço - MG




A hidroterapia, terapêutica pela água fria, já era conhecida e empregada nos séculos passados. Deve-se a Eduard Hallmann (1813-1855), de Hanover, Alemanha, o estudo científico da hidroterapia. No entanto, como método baseado em princípios racionais e científicos foi adotada pela primeira vez no século XIX, na Europa, por Vincenzi Priessnitzovi(1799-1851). Priessnitzovi nasceu em Gräfenberg, que atualmente faz parte da República Checa. Em 1827, fundou um estabelecimento hospitalar destinado ao tratamento de doenças crônicas onde a água fria era a única terapêutica adotada. Priessnitzovi encontrou adeptos em várias partes do mundo e o método terapêutico da hidroterapia ficou conhecido e praticado em toda a Europa e fora dela. No livro Meine Wasserkur “Meu Tratamento pela Água”, publicado em 1887, pelo clérigo Sebastian Kneipp, o sacerdote alemão ensinou que a água fornecia à força vital humana elementos de combate a diversas enfermidades, tais como bronquites, reumatismo, neurastenia, etc. A terapêutica hídrica encontrou adeptos principalmente entre os pacientes das classes abastadas. No Brasil, um dos primeiros e principais prosélitos foi o dr. Antônio Ildefonso Gomes(1794-1859), cirurgião, estudioso de botânica e tão devotado ao sistema que até ganhou, no Rio de Janeiro, o cognome de “Doutor da água fria”. Publicou em 1848, o seguinte trabalho: “Manual de hidro-sudo-terapia ou diretório para qualquer pessoa em sua casa curar-se de uma grande parte das enfermidades que afligem o corpo humano, não empregando outros meios que suar, água fria, regime e exercício.”


Em Nova Friburgo, podemos atribuir a Gustavo Leuenroth, ex-mercenário alemão, a primeira “Casa de Banhos” em meados do século XIX. Com a hidroterapia preconizada por conceituados médicos nacionais e estrangeiros, possuindo uma base científica, apoiado por políticos e tendo como clientela as classes abastadas, era natural que se expandisse. Em Petrópolis, o francês Antonie Court instalou, em 1877, o Imperial Estabelecimento Hidroterápico, que o Imperador Pedro II frequentava amiúde. Já em Nova Friburgo, foi um italiano, natural de Nápolis, quem trouxe as qualidades terapêuticas da hidroterapia para a então vila. Tratava-se de Carlos Eboli(1832-1885), médico formado em 1856, pela Faculdade de Paris, sócio correspondente da Imperial Academia de Medicina. Eboli edificou, em Nova Friburgo, o que seria considerado o maior estabelecimento de hidroterapia da América Latina: o Estabelecimento Sanitário Hidroterápico.


Em 1872, inaugurou esse estabelecimento em sociedade com o médico Fortunato Correia de Azevedo. Utilizava as denominações de Casa de Saúde, Casa de Duchas, Casa de Banhos e como vimos, Estabelecimento Sanitário Hidroterápico. Não bastasse a ousadia de seu projeto, Eboli nos legou o lindo prédio em estilo neoclássico que é o Colégio N.S. das Dores. Nesse exato local, funcionava o Hotel Central, que na realidade, era o prédio principal, tendo como anexo o Estabelecimento Hidroterápico. O hotel possuía acomodações para 180 hóspedes. O Estabelecimento Hidroterápico tinha um escritório na Rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, onde os clientes poderiam ter uma consulta com o Dr. Ribeiro de Almeida e obter igualmente informações sobre a hidroterapia. Foi o primeiro prédio na cidade a utilizar luz elétrica, isso quando a eletricidade só chegaria a Nova Friburgo mais de 30 anos depois. Um investimento de tal monta na então pacata vila de Nova Friburgo devia-se ao fato de o município já possuir notoriedade em relação às suas qualidades climáticas, salubridade e possivelmente fartos e notáveis mananciais de água, pois, do contrário, não se justificaria um estabelecimento de hidroterapia. Clima e saúde, eis um paradigma no inconsciente coletivo oitocentista. A hidroterapia era preconizada para a cura dos que sofriam de enfraquecimentos, dispepsias, moléstias nervosas, tuberculose, beribéri, reumatismo, bronquite e outras moléstias. O tratamento à base de hidroterapia, associada às qualidades do clima de Nova Friburgo, atraiu uma chusma de enfermos e turistas à cidade, sendo o mais ilustre de todos, o imperador D. Pedro II e a Princesa Isabel, que procurou a hidroterapia para se curar de sua suposta infertilidade.


Carlos Eboli faleceu em 1885, aos 53 anos de idade e, desde então, o estabelecimento passa a enfrentar dificuldades financeiras mesmo com a administração de novos sócios. A Marinha do Brasil pretendeu adquirir esse prédio, pois já fazia uso da hidroterapia para a cura de seus marujos vítimas do beribéri. No entanto, Rui Barbosa, que era frequentador habituè em Nova Friburgo, solidarizou-se aos friburguenses que não desejavam um “centro de peste” na cidade salubre e advogou contra tal aquisição. No entanto, em 1895, dez anos após a morte de seu timoneiro, Carlos Eboli, o Estabelecimento Hidroterápico e o Hotel Central entram em processo de falência e são penhorados pelo Banco Comercial do Rio de Janeiro, através de uma Ação Hipotecária. Como sabemos, hoje pertence à Irmandade de N. S. das Dores, que manteve apenas o prédio do hotel. A hidroterapia faz parte de uma importante fase da história da medicina no mundo, em que se atribuía a cura de diversas doenças à utilização desse método, numa época em que a ciência médica dava os seus primeiros passos. E Nova Friburgo pode se orgulhar de ter escrito um capítulo dessa importante parte da história da medicina.

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